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Investimentos em cenário de juros mais baixos

Muito se tem falado sobre as necessárias e importantes mudanças na gestão de investimentos, dada à grande queda nas taxas de juros no Brasil.
É relevante mencionar que, do ponto de vista do investidor, a taxa de juro nominal tem sua importância, mas o que conta mesmo é a taxa de juro real, ou seja, quanto de juro acima da inflação o investidor ganha.
Nesse ponto é interessante notar que a evolução do juro real não acompanha necessariamente o ritmo da queda do juro nominal, porque depende, ao mesmo tempo, da inflação. Mesmo assim, existe uma forte correlação entre eles, o que pode ser visto nos gráficos abaixo:

Elaboração FIDUC com fontes: ADVFN e BACEN
A queda tem se tornado mais perceptível e mostra claramente a mudança de cenário que, esperamos, pendure e até se acentue, até porque o Brasil foi, por muito tempo, o líder do ranking mundial de juros reais, perdendo a posição em maio de 2017. Agora ocupamos a quinta posição, atrás de Argentina, Turquia, Rússia e México
Assim, a questão é: Com juros reais mais baixos, onde investir?
Para responder à essa pergunta, não é necessário reinventar a roda, mas olhar para o mundo desenvolvido, que já tem taxas de juros reais muito baixas – em alguns casos, até negativas!
Os investidores desses mercados, como o americano e o europeu ocidental, já sabem há muito tempo que a renda fixa deve fazer parte de seu portfólio como parte da estratégia de diversificação, mas com objetivos principais de fornecer liquidez e redução de volatilidade, ou seja, proteção contra movimentos bruscos ou momentos de tensão.
Assim, o efetivo de crescimento do patrimônio não vem, como regra geral, da renda fixa, mas sim de outras classes como o multimercado e, principalmente a renda variável.
Ambos trazem consigo o potencial de gerar retornos maiores e cobram um preço por isso: A volatilidade que a carteira passa a ter, ou seja, as oscilações da valorização são muito mais intensas do que na renda fixa.
Assim, no Brasil, os investidores precisarão aceitar essa volatilidade de curto prazo para poderem obter retornos maiores no longo prazo.
Não será mais possível apenas emprestar dinheiro para o governo, por meio de títulos público, e ter um investimento com baixa volatilidade, alta liquidez e bons retornos.
Portanto, é fato que os investidores precisarão utilizar melhores e mais sofisticadas estratégias para as escolhas de alocação de seus investimentos, o que os leva à um novo risco atrelado à essa questão: Em quem confiar para tratar desses assuntos?
Essa questão, em minha opinião, é mais relevante do que a migração do perfil dos investimentos, de conservador para mais arrojado.
Esse problema se torna particularmente delicado no Brasil, onde o modelo mais disseminado de prestação de serviços financeiros é o transacional, utilizado por todos os bancos e corretoras, plataformas abertas ou fechadas. Nesse modelo, a remuneração do profissional é dada pelos fornecedores dos produtos, baseada no volume de vendas e no rebate correspondente pago, o que causa um conflito de interesses insolúvel.
Também por essa razão, nos países desenvolvidos, notadamente nos Estados Unidos e na Inglaterra, o modelo de prestação de serviços financeiros de maior destaque não é o transacional, mas sim o fiduciário.
No modelo fiduciário, a remuneração do profissional advém exclusivamente do cliente, evitando ao máximo os conflitos de interesse, de forma que o profissional atuará com seus melhores esforços para fornecer ao cliente opiniões isentas, de acordo com seu perfil e objetivos, ajustando o curso do plano ao longo do caminho..
Nesse modelo, normalmente se cobra um percentual sobre os investimentos sob gestão, que variam conforme o tamanho dos ativos. Na Inglaterra, por exemplo, a maior empresa de planejamento financeiro, chamada Saint James’s Place (sjp.co.uk) cobra 1,5% ao ano de seus clientes e, em contrapartida, fornece serviços de planejamento financeiro e gestão patrimonial, buscando os melhores investimentos do mercado, o que resulta em uma relação com maior confiança, que tende a trazer melhores resultados ao longo do tempo, dado o alinhamento de interesses entre todos os envolvidos atrelado à gestão profissional do portfólio da carteira.
Assim, por mais contra intuitivo que possa parecer, em cenários de juros mais baixos, pagar por serviços de excelência em gestão patrimonial não se torna mais caro e, pelo contrário, se torna muito mais importante do que em cenários de juros absurdamente altos como estávamos acostumados.
Não tenho dúvidas de que esse modelo, que já existia no Brasil, mas apenas para famílias com patrimônios muito grandes por meio de Family Offices, será ampliado para todas as faixas de renda e patrimônio, permitindo que o modelo fiduciário seja implantado em larga escala no Brasil.
E você, investidor, já pensou sobre o assunto?

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